quinta-feira, 24 de julho de 2008

Anarquias

- Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar.
``Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia tê-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora.''
``Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um entre a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos - vinte e um o máximo - que foi quando me tornei anarquista.''
Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco.
- Fui sempre mais ou menos lúcido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto - o anarquista consciente e convicto que hoje sou.
Fernado Pessoa
Banqueiro Anarquista

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Charles Bell


Óleo sobre tela, 226x155cm
1983

domingo, 20 de julho de 2008

O Amor de uma vida

Ana queria mudar de roupa, por isso fomos a sua casa.
A casa era uma vivenda recentemente construída, de uma arquitectura linear, que demonstrava a capacidade económica dos seus pais.
Entramos. O silêncio sepulcral daquelas paredes, parecia abraçar-nos de uma forma persistente e isso de alguma forma surpreendeu-me.
Entramos no seu quarto. Na parede estava uma pintura minha que fiz para uma festa no Bar “A noite tem mil olhos”. Uma figura estilizada de um homem a tocar um instrumento de sopro, pintada a preto e dourado.
“Queres que saia”, perguntei eu de uma forma que acentuava um pudor que não era habitual em mim.
“Não é preciso. É como se estivéssemos na praia…”
Eu fingi estar distraído com os livros que ocupavam a estante, mas não consegui deixar de reparar na forma como estava magra e na roupa interior que tinha. Não tinha perdido o bom gosto e até era capaz de afirmar que o tinha refinado.
Por norma, sobretudo naqueles dias, a vaidade era uma das características que mais me incomodava nas mulheres. Mas nela a vaidade encaixava tão perfeitamente como a água se molda a qualquer objecto que a contenha.
“Sabes, o grande amor da minha vida é um homem casado…” Disse ela como se esperasse qualquer tipo de comentário. Mas eu nada disse limitei-me a olhá-la. Na altura assumi saber quem era esse amor, mas hoje, de alguma forma lamento nunca ter perguntado quem era.

sábado, 19 de julho de 2008

Morrissey - At Last I Am Born - Live

Fantasmas

Um fantasma do passado surge inesperadamente, durante a noite, esquelético e carcomido pelo tempo…
O Filipe um dia disse que era estranho que uma pessoa com tanta vontade de viver se tivesse acomodado, assim de repente, a uma forma conformista de vida. Mas eu não poderia concordar; Eva não tinha vontade de viver, carregava um desespero que a forçava em frente e acomodou-se assim que encontrou aquilo que lhe deu um vislumbre de paz…

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Robert Frank


Fotografia: Robert Frank

sábado, 12 de julho de 2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Pequenos

Pequenos traços de luz rasgam a noite...
"Se não sentisses aquilo que sentes por mim, adorava fazer amor contigo, mas desta forma não sou capaz..."
Pequenas gotas de água consomem o oxigénio...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Elektra Natchios

Reatrada por Frank Miller.
Como sempre deveria ser...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cossery

“Nunca desejei ter um belo carro ou qualquer outra coisa a não ser eu mesmo. Posso ir para a rua com as mãos nos bolsos e sinto-me um príncipe.”
Albert Cossery

Esquerda

Para explicar a opção que tomou Ana disse: “Sou de esquerda, portanto…”
Mas eu não pode deixar de pensar que ela mal sabia o que isso queria dizer. Para ela a esquerda pouco mais era (e é) que uma relação afectiva com a progenitura. Por isso mesmo bebi calado o resto da minha cerveja.

Água


Fotografia: Michel Comte